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sábado, 14 de agosto de 2010

O Evangelho do Proto Punk


Eis a capa


As coisas estavam mudando para os Stooges em 1970.
Depois do fracasso do lançamento do álbum de estréia, a barra estava meio pesada em Detroit e eles resolveram se mudar para a Costa Oeste.

Em Los Angeles, começaram a trabalhar no que seria o seu segundo disco, Fun House. Ainda na viagem para a Califórnia, Iggy Pop recrutou o saxofonista Steve McKay que, à sua maneira, ia influenciar de forma considerável o som da banda no novo trabalho.


Fun House
se diferenciou bastante do primeiro LP por traduzir de forma inefável o tipo de som que os Stooges faziam no palco, enquanto, ao mesmo tempo, em seu bojo, ele trazia elementos ‘de vanguarda’ que, no fim, faziam a sua música soar menos crua, embora o produto final tenha sido concluído numa progressão fulminante (duas semanas) quando a maioria das bandas de rock, no alvorecer do progressivo, praticamente acampavam em estúdio, em busca da sonoridade perfeita.

O disco (cujo nome do local onde então eles ensaiavam) se tornaria um trabalho mais bem acabado (agora sem John Cale na produção, em favor de Don Galucci, ex-Kingsmen) dos Stogges e, embora tenha se transubstanciado em outro fracasso comercial (era, vamos dizer, avant le lettre em se tratando de um estilo que só se desenvolveria e iria florescer no fim da década), o tempo iria cuidar que Fun House se tornasse uma espécie de evangelho do punk.

A própria banda estava num processo de mudanças: Dave Alexander sairia pouco tempo depois — demitido por tocar (ligeiramente podre de) bêbado no palco durante o Goose Lake International Music Festival. No seu lugar, entrou James Williamson como o guitarrista principal; Billy Cheatham, roadie dos Stooges, seria o guitarra-base, e McKay passaria a tocar na turnê de divulgação do LP.

Para completar, a Elektra Records se desinteressou (o contrato originalmente era para três álbuns) pelo desastrado toque de Midas do conjunto de Iggy Pop (que, naquela altura, influenciado pelo seu empresário, Jon Adams, começou a se afundar nas drogas) em matéria de venda de discos e os dispensou — embora Down In The Street tenha se saído relativamente bem nas paradas de sucesso.

Uma grande injustiça, já que o cenário musical era diverso do tipo de música que os Stooges idealizaram: mesmo relacionado a gêneros como o punk, Fun House é, antes de tudo, um disco de rock, elementar e sofisticado ao mesmo tempo. Loose é um clássico e mostra que a banda evoluiu musicalmente (e iria evoluir ainda mais se), Dirt é um blues genial, visceral e espontâneo. L. A. Blues, com suas microfonias, quase mandou o engenheiro de som, Brian Ross-Myring, para o plantão de apoio psiquiátrico.

Fun House iria conformar a sua excelência nas décadas vindouras e se tornaria uma obsessão — tanto que o selo alternativo Rhino (conhecido por exumar grandes bandas de rock dos anos 60 esquecidos pelas gravadoras originais, como os Turtles) lançou uma caixa com sete CDs que trazem todos os vinte rolos que compreendem toda as sessões de gravação do disco.


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domingo, 23 de agosto de 2009

It's Smoke Time!



A vez primeira que eu ouvi falar do The Smoke (acima) foi numa coletânea random pirata, tosca mas muito bem bolada, feita por um sebo daqui de Porto Alegre, chamada Best Of Underground Light. A seleção, inspirada num programa que o próprio dono da loja levava ao ar na Unisinos FM de São Leopoldo, tinha mais ou menos o espírito do que se convencionou chamar de Nuggets, ou seja, bandas obscuras — e subestimadas — dos anos 60.

Naqueles tempos pré-internet, se já era quase tarefa de gincana achar esse tipo de material de alternative rock sessentista, imagine conseguir qualquer informação a respeito deses conjuntos que, em geral, mal emplacavam singles o suficiente para fechar um long-play.

Aquela seleção que eu tive em mãos dava um apanhado geral do que se fazia além do mainstream da época, principalmente bandas do fim dos anos 60, como It's a Beautiful Day, Laghonia (peruana, por incrível que pareça), Nirvana (o original), Argent (projeto que o tecladista dos Zombies, Rod Argent, criou após a dissolução do quinteto) e o The Smoke, além de muitos outros.

Muito tempo depois eu fui conseguir um disco do The Smoke — o único, aliás, que saiu em 1967. A minha surpresa é que eu sempre tive referências à eles como uma banda alemã, mas depois fui ver que eles eram ingleses de York, e tiveram várias formações, a mais conhecida delas se intitulava Five Chords.

O curioso era justamente isso: a banda emplacou a maioria dos seus sucessos na Europa Continental, embora tivesse uma imagem fortemente vinculada à Swinging London e à banda do estilo do Small Faces ou até do The Who, embora o Smoke fosse mais eclético e com uma linguagem rock menos agressiva e bem mais pop.

No começo, eles eram capitaneados por Mick Rowley e Phil Peacock, num duo chamado Moonshots, depois apenas The Shots. Com o advento da Invasção Britânica, eles mudaram o som de R&B para algo mais próximo do mod. Formaram um quinteto e conseguiram um contrato com um produtor independente, que conseguiu levá-los ao disco pela Columbia inglesa. Descontente com as mudanças, Peacock saiu do Smoke, e eles permaneceram como quarteto, com Mal Luker na guitarra base, Zeke Lund no baixo e Geoff Gill na bateria.

Trocaram de empresários, e assinaram com Ron e Reg Kray que, para azar deles, tinha boa fama no submundo inglês, e não entendiam nada de música. Logo, o Smoke teve extrema dificuldade em conseguir tocar em clubes londrinos, dado a incúria da dupla de gângsters. Sorte que, com o acordo firmado com o editor musical, Monty Babson, eles tinham copa franca para compor e ensaiar em seu estúdio — uma disponibilidade de equipamento e de tempo de estúdio que talvez só os Beatles tivessem.


Promo de My Friend Jack

Foi nessa época que eles mudaram de nome para The Smoke e criaram o seu maior sucesso, My Friend Jack, bem ao estilo agressivamente mod daqueles meados dos anos 60 e que mais tarde seria rotulado como punk psicodélico — referências à drogas, distorção e power chords à cotoveladas. Para azar deles, o compacto saiu em fevereiro de 1967, e foi abafado pelo suceso de Penny Lane/Stawberry Fields Forever, chegando apenas ao 45 lugar e, para piorar, por causa da letra, My Friend Jack foi banida da BBC, e ficou apenas três semanas nas paradas.

A sorte deles foi que a música estourou na Áustria, na França, na Suécia e fez sucesso suficiente na Alemanha, aponto do quarteto ser convidado a tocar no Beat Club, programa de tevê local, ao lado de Jimi Hendrix, The Who, Cliff Bennett & the Rebel Rousers. De quebra, ainda conseguiram uma turnê pelo país, junto com o small Faces e os Beach Boys naquele verão.

Tamanho sucesso exigiu que eles lançassem um disco por lá. E baseado na quantidade de material que eles haviam exaustivamente ensaiado e gravado no estúdio de Babson, em 1966, saiu o It's Smoke Time, um interesante crossover entre a psicodelia e o pop rock, com alguns momentos além do gênero, como em If The Weather's Is Sunny, uma quase Bossa Nova, que é sem dúvida uma das melhores do LP e que, no entanto, é totalemnte subestimada. Após o disco, eles se radicaram msucialmente na Alemanha e conseguiram assinar contrato com Chris Blackwell que, no entanto, queria que eles voltassem a gravar na Ilha. O Smike declinou e isso fez com que a história deles como banda inglesa fosse refugada para sempre. Mick Rowley ficou no continente e os demais viraram músicos de estúdio de Monty Bobson, em Londres.

My Friend Jack se tornaria sucesso do grupo de eurodance Boney M, em 1976. O único disco do Smoke, It's Smoke Time, ficou anos esgotado e só seria relançado em formato digital no fim dos anos 90.


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